Cego. Assim eu nasci e por aqui estou, nesse mundinho esquecido no meio de um mundão de cores. Um turbilhão sensorial que se esvai, como que fluido, por entre meus dedos cansados na mesma velocidade e ímpeto com que tento retê-lo. A sabedoria popular prega a noção turva de abestalhada de que o cego tem compensado o não-ver no tocar, no ouvir, no experimentar. Pois a sabedoria do povo nada conhece... A sociedade enxerga. Vê as cores, as formas, vê toda a baboseira que não vejo. Vê o universo, vê todas as pessoas... Só não me vê. Não me vê, porque eu não vejo.
A meu ver – por irônico que isso deva soar, estar mergulhado na escuridão desde que vim à luz não poderia ter sido mais providencial. Sei que chega aos demais como a maior das covardias, mas me é confortável estar à margem. Os “normais” me colocaram num cativeiro que, pra mim, tornou-se um pedestal. Meu trono no ponto cego da natureza. Eles que lidem com seus problemas e contratempos e tragédias e infelicidades. Curiosamente, aquela expressão abestalhada em que se diz que “não viu nem cor do que aconteceu” se aplica, literal e perfeitamente, à minha situação. Sinto-me realizado, sequer caibo em mim de contentamento por estar excluído das circunstâncias abundantemente despropositadas e quase lunáticas em que meus congêneres conseguem se enfiar e ficar empacados. Sorte a minha, sou cego. Assim nasci e cá estou, louvando minha incapacidade... A maior dádiva que recebi da vida.
Gosto de desordem, de absurdo. De incoerência. Gosto de ilusão, de tragédias ilógicas e pulsantes. Gosto de desconstruir. Minhas fronteiras fui eu quem desenhei – assim, no tato, na cara dura. O que alicercei e estabeleci no mundo foi a partir, somente, de um set de Lego. Dou umas patadinhas, chuto daqui e dali até ele ruir. Se não houver mais o que devastar, eu cato uma pecinha qualquer e recomeço do zero... Do uno, que seja. Dali mesmo. Aquela porcaria de plástico vira meu propósito e meu eixo. E se quiser construir uma barcaça em cores primárias ou um obelisco ao contrário, eu vou. Vou moldar a rosquinha, o batráquio ou o bispo de xadrez que der vontade. E se meu foguete começar foguete e terminar vaso de planta, bom para ele. Para mim. Para os outros eu não sei – e nem quero e tanto faz. Eu gosto é de entropia - metaforicamente. Sorte a minha, ela só cresce. E quanto à ausência de lógica... É, não abro mão. Faço questão de uma falta de sentido. E eu futuco ela até virar teorema. Mexo e misturo até virar verdade universal, afinal, eu nasci com poucas verdades absolutas com as quais contar. Nisso não enxergar não me fez nada especial. Do meu sublime, incontestável e imutável, cuido eu. Ando cuidando, sim. Tenho cá minha coleçãozinha de fragmentos "absolutos". Uns estão pendurados, a cola que os mantém unidos ainda secando, outros enfileirados e organizados em ordem alfabética, outros ainda sem nome, estrebuchantes, embaixo da mesa como um pé de meia sem par. Mas eles sempre tem par. Aliás, eles sempre pertencem a um conjunto, uma espécie de espaço amostral do qual eu volta e meia cato uns pedaços pra matutar, pra situar, pra atribuir condições ou características novas, inéditas, mas plenas e auto-suficientes. Essa foi a liberdade que minha limitação me trouxe. Quer eu seja uma constelação, um às de espadas, quer seja só mais um cego esperando ajuda pra cruzar a rua ao fechar-se o semáforo, minha deficiência me deu a capacidade de pensar. Nem toda a mais magnífica experiência sensorial do mundo chegaria a se sobrepor a isso.
Escolhi para alicerce primeiro viver na cidade que acredito – bem como muitos, embora particularmente não possa constatar – ser a mais borbulhante em sabores e vistas e cores e visões nesse planeta. Não bastasse isso, tomei como minha base, palácio de descanso e fortaleza local dos mais belos e ricos em afagos aos sentidos: o Jardim Botânico carioca. Um santuário da vida, embrulhado em pulsos e correntes de suavidade e calmaria, como uma maravilha de doce lotado de chantilly com um cerejão bem lambuzado, escorrendo doçura, no topo. Cada passo é uma colherada de êxtase uivante. Por ali me estabeleço pela manhã e por ali fico até o cheiro do crepúsculo que estende meu privado breu ao restante do mundo me invadir. E foi lá que conheci (se é que posso dar como “conhecer” meu atual estado de anonimato, como um espião doentio e tremelicante, à espreita de sua presa desavisada) a tal Ana.
Pelo som delicadamente farfalhante que produz ao esmagar as folhas secas por onde passa, deve ser pequenina. Não pequenina na idade. Pequenina, simplesmente. Leve e delicada. O pouco abalo que gera na atmosfera poderia denotar-me até mesmo que não anda; flutua, como um órgão daquele ecossistema de fotossíntese e orquídeas e concreto úmido. Ouço sua voz de vez em quando, e na sua ausência chego a procurá-la no assovio do vento que me acaricia as faces. Quisera eu que seu hálito morno me acariciasse as maçãs, também. Nunca sequer dirigiu a palavra a mim. Sei seu nome por um desses acasos desajeitados com que trombamos por aí e, sendo franco, não apostaria minha vida na veracidade da lembrança. Pode ser que seja Ana só pra mim. Que seja, na realidade, Marta, Júlia ou Natália. Mas gosto assim. Até prefiro não sabê-lo ao certo... Pra mim é e será sempre minha Ana. A Ana de mais ninguém. Só minha.
Minha musa diáfana, se é que tenho lá a autoridade para caracterizá-la assim, conversa com as plantas. Apenas sinto seu cheiro, e o cheiro da terra, e o cheiro do ozônio, e o cheiro do orvalho... Mas acho que se as visse, trocaria com elas umas palavrinhas aqui e outras ali, também. Imagino ser irresistível, afinal. Não me afastaria da realidade, no entanto, se afirmasse que penso assim somente por buscar, trôpega e desesperadamente, por uma boa razão para não dizer ser minha Bela (ou Ana, ou Júlia, ou Marta...) louca, desequilibrada, desorientada como todos os demais. Minha Ana é diferente. Ela relata em segredo suas frustrações e quereres aos seres do Jardim por querer livrar-se de sua situação banalizante, humilhante, desgraçante, enquanto ser humano. Ou ao menos é nisso que escolho acreditar, mais uma vez. Mergulharia sem pesares nas lambidas da chama infernal se tivesse a garantia de que pude, ao menos num único instante de delírio durante minha vida de olhos impotentes tão abertos e ouvidos tapados para as dores da humanidade, dividir com ela minha tranquilidade e supremacia diante de toda a cegueira dos demais. Os outros não vêem minha Querida como vejo. Os outros enxergam sem compreender. Eu meramente compreendo – ou tento, ou finjo – sem enxergar.
Não sei se já me viu, se me notou. Nem procuro saber. Ana é minha utopia – o nicho do mundo real, do mundo dos que sabem ser o verde verde e o violeta violeta, que arrebatei para encaixar no meu universo paralelo. Tenho uma imagem, especial, exclusiva, particular, de minha Amada. Não sei se é loira ou morena, se tem as mãos pequenas ou se seus cílios são longos. Tampouco sei o que tudo isso significa. Sei que, como quer que seja, é linda, é a mais linda, e eu vejo, pressinto, percebo suas cores. Sinto suas pinceladas me fazerem cócegas e borrarem meu panorama, colorindo meu mundo, me salvando do negro, do cinzento e do alvo, indefectível nada que me cerca. Não sei que cores são, mas pra mim são as cores da pureza, do caráter e da completude. Plenitude.
Minha Ana, seja quem for, é minha Vida. É minha ponte levadiça entre a torre de isolamento da peste da civilização e a vidinha colorida dos demais. Mal sabem eles, que enxergam, que sabem o que é laranja e azul, o que são cores de verdade. Só eu sei. Só quem tiver uma Ana, um arco-íris particular e sublime, sabe.
Só o cego vê a cor do Amor.
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