Gostava de se fantasiar. Não precisava ser acompanhada, muito menos de uma justificativa, um convite, um ambiente, um contexto. Gostava de misturar sua identidade a fragmentos do que a rodeava, de desafiá-la, de destacá-la momentaneamente e brincar com os resultados.
Era linda. Sempre fora. Em nada se assemelhava a uma boneca e jamais contara com a desenvoltura ou postura de uma bailarina. Sequer precisava. Era firme, tinha uma pose da qual não se despia e a qual nem as mais bem-ajambradas fantasias encobriam ou disfarçavam. Nada esboçava de frágil ou dependente, e aprendera desde cedo, bem mais cedo do que merecia, a ter de se virar sozinha com o que tinha. Inventava-se, pincelava seu mundo com os reflexos da sua determinação. Sobrepunha suas capacidades à débil delicadeza e instabilidade do castelinho de cartas que construía. Mascarava as lacunas que não estava apta a preencher de forma a fazer sua estrutura parecer, aos olhos de quem via, uma fortaleza em pedra fria. E convencia.
Era suficiente. Sabia disso. Deliciava-se, destilando verdades diversas, e estampando às fuças de quem pretendesse ou precisasse escutar que verdadeiramente era dona de tudo aquilo que possuía: ela conquistara, ela idealizara e trouxera para a realidade. O que tinha pertencia a ela e, portanto, não devia quaisquer satisfações a ninguém. Sabia ser ímpar, sabia ser um ponto fora da curva, sabia ter vindo ao mundo dotada de características – qualidades – inalienáveis.
Ainda assim, fantasiava-se. Vestia-se de outro alguém, de outra coisa qualquer, como se molhasse a ponta do pé numa piscina transbordando de desconhecido, de inexplorado, dichavando a personalidade que ostentava e escondendo-a descuidadamente por trás de um traje variável, deixando aparecerem as bordas e, assim, nunca perdendo a consistência.
Era ela. Só ela. Brincava de pique-esconde com o mundo, e embora ele nunca a encontrasse, ela sempre sabia onde ele estava, o que ele queria e o que ela precisava fazer para que seu papel diante dele fosse cumprido. Era o conjunto mais pleno de imperfeições que a natureza já conseguira reunir. Era mais que boa, mais que bela. Era ideal. Era mais que um ser. Era um conceito, uma imagem. Uma fantasia.
--
Feliz dia das mães, mãe.
Nenhum comentário:
Postar um comentário